|

PARTICIPANTES
Após algumas desistências (poucas) e outras mudanças na constituição das equipas, partiram, de facto, no dia 1 de Novembro, da torre de Belém, em Lisboa as seguintes equipas:
José Luís - Conceição Martins (A 4x4)
Margaridas Covacich - Margarida Giraldes - Lauri Kivinem (2cv6)
Luís Rosa - Mimi - Carla Rosa (AK400)
Pinto -Dário - Azevedo (AK400)
Rui Roda - Ascenção (2cv6)
Mourão - José Eduardo (Dyane)
Alberto Marques - Lurdes Gomes (Dyane)
José Montalvo - Francelina (2cv6)
António Santos - Cristina (Mehari)
Francisco - Ana Laura (Dyane)
João Martins - J. Cação(2cv)
Fernando Silva - Conceição(Dyane)
Raul Esteves - Helena(Dyane)
José Duarte - Cidália(Dyane)
Manuel Amaro - Ramalho(2cv6)
Miranda - Gaspar(AK400)
João Moutinho - Cassiano Silva (2cv)
Em tarifa no “Camping Torre de La Peña I” estavam os restantes participantes estrangeiros, os quais só ai tiveram conhecimento da atitude da embaixada da Argélia, desaconselhando a realização do Raid no seu território e originando a falta de alguns vistos nos passaportes dos portugueses.
As equipas eram as seguintes:
ALEMANHA FEDERAL
Harald Winkelmann - Hermann Weerts - Susanne Prost (AK400)
Christian Dubiel - Ulrich Huiras(AK400)
Thomas Obst - Thomas Mauer (AK400)
Walle Spannegel - Angie Jourdan (AK400)
Thomas Mauerick
GRÃ-BRETANHA
Alain Hardinge -Mark Hardinge (2cv6)
Heather Mary Fowler - Resemary Fowler (2cv6)
Robert Paul Bateson - Joanna Louise (2cv6)
Anne David Brooks - Nogel Simon Graham(2cv6)
BÉLGICA
Dirk Oosterlinck - Paul Vanasche (AK400)
Thierry Wergifosse - Charlotte Elliker (CH)(2cv Pick-up)
LUXANBURGO
Pierre Schumacher - Jean Paul Weber (2cv)
FILÂNDIA
Erkki Mikonmaki - Tiina Mikonmaki (2cv6)
JUGOSLÁVIA
Peter Pogorevc - Sonja Barat (2cv6)
Após terem conhecimento das alterações do percurso, que incluía somente território Marroquino, os participantes da Grã-Bretanha, Luxemburgo, Jugoslávia, bem como equipas Alemãs e o nosso sócio Moutinho, decidiram manter o percurso inicial e ir mesmo até In Sallah. Esta separação originou 2 Raids. Um constituído por 12 carros que fizeram o percurso inicialmente programado e outro com 21 carros que percorreram o território Marroquino. Sobres este último, vamos neste número, publicar a crónica da única equipa Portuguesa feninina inscrita, da nossa sócia Margarida Covacich, prometendo no próximo número uma outra crónica da viagem à Argélia, não publicada agora, por falta de tempo e espaço.
Diremos apenas que as dificuldades do percurso original eram uma realidades mas o Moutinho depois conta como foi.
RAID SAHARA
Diário de “Bordo”
Era suposto eu escrever um diário de bordo, no entanto não surgiu um diário nem de bordo nem a bordo!
“Mea culpa” mas logo em Tarifa fui vítima de um ataque de desapontamento que misturado com uma dose de tristeza, fez com que me falhassem as escovas do motor de arranque.
Passei a fronteira Marroquina, desencontrei-me em Tehaouan, dormi em Chechaven e segui até Fez. Ai, deixei-me fascinar por aquele labirinto de ruas com 2m de largura, tão estreitas quanto fervilhantes de trabalho, executando em cubículos com cerca de 2m2, por todos aqueles artesãos; ruas que são autênticas fábricas de curtumes, tintureria e tecelagem, cinzelaria, etc. Fiquei com a sensação de que todo o habitante que se preza é um artesão por natureza, ou será por hábito? São ruas sem veículos, diferentes de todas as outras onde e vivem as 24h do dia, onde tudo acontece e onde até os burros deixam de ser burros para se transformarem em empresas de transporte.
Cheguei à noite ao 1º oásis do percurso MESKI – e aqui foi o inicio de um sonho que se tornava real, inesquecível! De Meski, eu troce dois bocadinhos: um camelo feito de duas folhas de palmeira entrelaçadas e uma flor que eu achei ter a cor de Meski – qualquer tom entre o amarelo e o branco; foi em Meski que aquele árabe de olhos compridos, vestido de azul e negro, me ensinou a enrolar o turbante que lhe comprei por 10 D.H., das duas maneiras mais comuns: protecção do nariz e bouca e protecção da nuca.
No dia seguinte a caravana 2CV foi conduzida pelo árabe, que entretanto se tinha proposto para nos guiar, até MERZOUGA, ao longo de um vale espectacular, por onde se prolongava o oásis, em direcção a RISSANI. À medida que o meu 2CV deslizava para sul, as regiões começavam a tomar o colorido deferente do habitual; a paisagem desertificava-se e aumentava em mim o desejo de sentir o sol quente na pele, após dias cinzentos e noites frias; solicito a responder à chamada, o pé direito carregava cada vez mais a fundo! Entrámos em RISSANI, parámos em frente da “Maison Touarez”, fizeram-se compras e partimos finalmente para a pista de areia que nos levaria a MERZOUGA. Essa pista sobre a qual eu tinha feito mil suposições, estava agora ali à minha frente; ao fascínio juntou-se o conhecidíssimo “medo do desconhecido”, que fazia suster a respiração e sentir o coração apertado, mas gana de conduzir o meu 2CV muito azul por aquela pista imensa e o desejo violente de chegar perto das dunas, de viver o deserto, suplantou tudo mais e o meu 2CV passou de trote apressado ao galope, no grande espaço aberto. Aqui eu vibrei com aquela quase brutal sensação de imensidade, de libertação, de infinito, tão semelhante à que sinto frente ao mar.
Agora, ao reler estas últimas linhas dou por mim a pensar que talvez haja uma certa correspondência entre o ocre avermelhado da areia e o azul do mar! Quem sabe?! Nunca tinha pensado nisto antes, mas talvez não seja por acaso que PRAIA=AREIA+MAR! dois extremos que se tocam na … praia?
Com a chegada à dunas, chegou para mim o ponto mais alto da viagem e torna-se demasiado difícil a sua descrição em poucas linhas; podia classificar esses momento com algumas dezenas de adjectivos, mas opto por um que já diz muito: colossal.
Em MERZOUGA caiu a noite ao som de Tam-Tam, juntamos num pseudo hotel-restaurante ao som de Tam-Tam, servimo-nos “Cous-cous” e “Tagine” ao som de Tam-Tam; depois foram as canções alentejanas, fados, musiquinhas, anedotas, palpites à roda da fogueira e de uma garrafa de aguardente na duna mais próxima do acampamento da caravana 2CV, ou seria já uma caravana 2 camelos?
Acabou a lenha (que ainda nos custou 30DH) acabou a música, calmaram-se as bocas, deitaram-se todos e ai eu vi a luz da note e ouvi o silêncio do deserto.
Na manhã seguinte, passámos novamente por RASSAMI, fazendo a pista em sentido contrário e seguimos para KELLA MGOUNA; dia comprido, em que fomos apanhados por uma mini tempestade de areia em ERFOUD, pela chuva já perto do fim da etapa e vimos neve nos cumes mais altos da montanha. Dormimos bem e levámo-nos melhor ainda no hotel que deve ter caído do céu, por não ter unhas. Acordamos com o sol e seguimos para QUARZAZATH por um vale que parecia sair dum concurso de “construções de areia” – casas, casinhas, castelo e castelinhos, cujas torres mais altas já se tinham esboroado; tão exótico e belo como miserável! A meta que se seguia era ZAGORA, o ponto mais a sul que iríamos atingir e a estrada desenhava-se por vales e desfiladeiros entre montanhas rochosas que pareciam mudar de cor à medidas que nos aproximávamos; por vezes podíamos ver um lado da estrada rochas completamente verdes – malequite – do outro, rochas castanhas avermelhadas e curiosamente o verde apresentava-se do lado direito e vermelho do lado esquerdo.
Em ZAGORA, “Camping de la Montagne”, tenda armada, jantar na mesa! Era uma mesa baixinha, redonda em cima de tapetes coloridos onde as cadeira vulgares davam lugar a coxins de couro de várias cores. Foi à luz de duas velas e de lanternas, dando a ideia de estarem penduradas nas tendas ou mantas, que nos serviam de tecto, que comemos uma “saladíssima”, muitas espetadas, batatas fritas, uvas, tudo acompanhado por musica estranha que se ouvia, nem alto nem baixo, nem longe, nem perto, suave, bem, marcada. No dia seguinte, logo pela manhã, começou a etapa mais longa – uma etapa que parecia não ter fim; a etapa até AGADIR, onde cheguei cerca das 11h da noite, demasiado cansada até para preencher os papeis de entrada no camping. Desta jornada fez parte a pista de calhau de ADZA que decorreu sem dificuldade, quase sem história e onde resolvemos parar, não para descanso mas para mais um almoço de enlatados em que o ponto alto foi o café, feito numa cafeteira que ia ficando célebre, o que já se ia tornando um ritual, levando a cabo pelo sócio nº1.
De ZAGORA a CEUTA aconteceu excursão, turismo, momentos de boa disposição, momentos de menos boa disposição, mas todos sem excepção, para recordar.
AGADIR tem a praia, as esplanadas, as avenidas, as lojas, os restaurantes, os hotéis, tudo o que é necessário ao turista.
MARRAQUESH – associo rapidamente ao haxixe e às próteses dentárias expostas em montras.
CASABLANCA – uma cidade meio americano, meio europeia com um cheirinho a árabe.
RABAT tem o palácio do HASSAN II – o rei; o mausoléu do MAHAMMMED V – o pai do rei, que aliás, empresta o nome às ruas, praças, pracetas e avenidas mais importantes de tudo quanto é aldeia, vila ou cidade. O mínimo que se pode dizer dele é que está em todas!
Em TANGER lembro-me de quase ter rebentado a rir com a minha co-piloto na noite em que ficamos no motel do camping.
Em CEUTA a saudade já se tinha acumulado e telefonei para Lisboa – quase único golpe de sorte durante a viagem toda – a cabine telefónica funcionava na perfeição sem “engolir” moedas.
De volta a TARIFA, nesse mesmo dia, entraram no camping “Torre de la Peña, um 2CV verde de matrícula finlandesa, um FAF amarelo e um 2CV azul.
Com as rodas na Europa, acho que nos “deu cheiro” ao “lar, doce lar…” e foi um acelerar. Esquecemo-nos de almoçar, comemos uma tortilha em Aracena, como que a dizer adeus a Espanha, dissemos Boa Noite ao guarda da fronteira espanhola e perguntámos o resultado do Benfica e da Selecção Nacional ao da portuguesa. Paragem obrigatória era no “Lebrinha” em Serpa, nem que fosse só pela cerveja, onde não faltou a telenovela, que só era difícil de ouvir por a televisão estar alta de mais: a boa algazarra portuguesa!
Foi com visibilidade quase nula, com chuva valentíssima, bancos de nevoeiro e ventos de rajada que cheguei a Lisboa; os olhos ardiam-me, a cabeça parecia não ser a minha e as costas doíam-me e foi tão bom chegar a casa, como partir para o deserto.
Para todos aqueles que não puderem ou não quiseram ir, só um concelho; não morram sem ir ao deserto! (de preferência com o Club 2CV de Portugal).
In
Revista do Club 2cv / Dyane de Portugal
1984, Nov-Dec, nº 10, 4/10p
Covachice, Margarida
Raid Sahar
|